Casa
#03 Com tantas mudanças de endereço, onde fica nosso lar?
Em meio às caixas espalhadas pela sala, um bebê carequinha se entretém feito um gato com a aba de papelão. Dentro dessa nave/barco/foguete/carro ele mexe a tampa para cima e para baixo repetidamente como quem rema em águas turbulentas, como quem troca a marcha em uma corrida de fórmula 1, como quem..
— Hey, mamãe! O que o mano tá fazendo dentro do balcão da minha biblioteca?
Ah, era isso. Se virarmos a caixa de cabeça para baixo, ela se torna mesa/balcão/esteira de supermercado/loja/biblioteca.
A menina que chama minha atenção, agora com quatro anos, um dia também coube dentro delas. Foi assim que encaixotamos cinco anos de vida na Itália para mudar para a Suécia. Colocávamos o bebê de nove meses, com sua carequinha e capacidade motora de quem só conseguia sentar, dentro de uma caixa. Guardávamos nossas roupas, livros e um par de louças enquanto minha filha se distraía numa piscina de bolinhas feita de papelão. Durava uns cinco, seis minutos.
Essa foi sua primeira mudança. De apartamento e de país.
Não foi a nossa. Antes da Itália, aterrisamos em Israel com um par de mochilas cada. Nossa casa era…bem, era isso. Nós e nossas mochilas. O deserto. O céu estrelado. Shots de araque com gosto de balas funcho. O som do riso das crianças brincando na rua as nove da noite. O cheiro do Challah vindo da padaria da esquina, que nossos amigos dividiam conosco no Shabbat. Descer as ladeiras de Ra'anana enquanto o sol se punha.
Viajamos um bocado. Dormimos em casa de amigos, em hostel, em acampamentos e em apartamentos alugados até sossegarmos o facho, como dizia a minha avó.
As quatro mochilas viraram caixas, cachorros e crianças. E a casa na Itália ficou pequena
ou aumentou?
Ainda antes disso, quando era apenas uma mochila e uma mulher, casa também foi chão de barro. Gargalhadas altas. O som dos matatus pelas ruas. O tempo lento. Banho gelado. Cabras no meio do caminho. O cheiro de chapati feito na beira da estrada. Tecidos coloridos. Um apartamento dividido entre três garotas, que agora são três mães e do Quênia carregam as histórias.
E antes disso, casa era a grama dos parques. Fazer piada dos cinco minutos de sol. Voltar encharcada do supermercado, carregando pesadas sacolas laranjas. Espanhóis, franceses, árabes, chineses, russos, japoneses, holandeses, colombianos e todo o resto do planeta dentro da mesma cozinha. Correr para pegar o último trem que partia de Londres. As cartas que chegam com selo da Coréia. A amiga que passo anos sem ver e, quando sentamos para tomar um café, é como se tivéssemos ficado poucas horas longe.
E antes – muito antes – disso, casa era o apartamento dos meus pais, que vivem até hoje na mesma rua, no mesmo bairro, na mesma cidade – a cidade onde nasci. Meu biso encostado na entrada da padaria Universo. Minha avó vendendo asinha de frango na festa da igreja. Minha mãe em seu escritório fazendo cálculos em sua agenda. Meu irmão jogando futebol no campo do Valdomiro. Minha avó paterna em seu jardim.
Muita gente já se foi. Muitos locais já não são.
Casa muda até quando a gente não sai do lugar?
A menina que chama minha atenção faz de mudanças a própria identidade. Nascida na Itália, crescida na Suécia de pais brasileiros, ela pertence aos três mundos com a naturalidade de quem entende que lar não é um endereço fixo.
Na primeira mudança de casa, as caixas serviram de brinquedo. Na segunda, era ela quem encaixotava seus bichos de pelúcia. Agora, ela escreve em suas próprias caixas de livros, que ocupam metade do caminhão.
Quatro anos e quatro endereços diferentes.
— Agora essa será nossa casa pra sempre, mãe?
Para ela, escrevi em 2020, quando ainda repousava em meu ventre:
Vai levar um tempo até você entender que casa é um lugar relativo.
Veja sua mãe, que fez de tantos lugares lar e, quando percebeu, já não sabia mais responder onde é que ficava a tal casa. Mas isso a vida vai dar um jeito de te ensinar, filha. Quem sabe cedo demais, enquanto assimila que tens casa em duas partes distintas desse pontinho azul chamado Terra. Com tantos mundos diferentes, pode ser que chegue um momento que você vai sentir que não se encaixa em lugar algum, e está tudo bem, filha. É normal se sentir deslocada.
Seja qual for o caminho que escolherás percorrer, vais deixar um pouco de ti e levar um pouco de tudo. Os cheiros, os gostos, os sons, as manias, as pessoas. Cada passo que você der, por menor que seja, vai criar sua história. Desde os primeiros passinhos agarrada às mãos de seu pai babão até os passos gigantes como se mudar para sua própria casa.
Quem sabe você leve caixas e malas cheias de coisas, achando que aquilo é que vai fazer você ter um lar de verdade ou, a essa altura, você já é louca o suficiente como seus pais que achavam que a casa cabia em um simples par de mochilas. Ledo engano.
Casa nem pesa, filha. Não é feita de coisa nenhuma, mas é feita de todos os pedacinhos que carregas consigo. Todos os olhares trocados, os sorrisos largos, o seu prato favorito, as músicas que você escutou, as línguas que ouviu, as ruas pelas quais passou, as longas conversas, as cartas que escreveu, os abraços que deu.
E talvez chegue um momento em que você já colecionou tantas memórias de diversas partes que nem sabe mais onde fica sua casa. Está tudo bem, filha.
Se tem uma coisa que posso te dizer é que não pertencemos à lugares. A gente sempre vai se encaixar onde tivermos pessoas que nos façam sentir em casa.
Rua das borboletas, n°4 - Luciana Godoi, ilustrado por Natalia Veras
Indicado para leitores a partir de 4 anos.
Mudanças trazem um turbilhão de sentimentos, e é exatamente isso que acontece com Teresa quando ela descobre que vai mudar de endereço. A menina não quer deixar suas coisas para trás, nem recomeçar em um lugar novo. É só quando encontra, em meio às caixas, um baú com memórias de seus pais, que ela finalmente entende onde está seu verdadeiro lar.
Este é um livro que ensina, de um jeito leve e sensível, sobre a nossa capacidade de carregar memórias e, ao mesmo tempo, ter a coragem de recomeçar em qualquer circunstância.
É uma história que nos lembra como é transformador criar nossa própria bagagem de lembranças, enquanto formamos novos laços e construímos novas histórias.
O livro também traz informações práticas para ajudarem os pais no processo de mudança com os fillhos, escrito pela psicóloga e analista de comportamento Juliana Palma Fialho.
Saiba mais sobre o livro aqui.







No início, me questionei muito: onde é o meu lar? Hoje, entendo que o lar é onde o coração se forma. Ele está, em parte, no Brasil, em parte cá em Portugal, e com o filho, na Dinamarca. O lar é onde o coração está, e tudo bem se amanhã precisarmos moldá-lo em outro lugar.
Lindo demais, Nike. Sempre amando essas edições da Língua que Liga!